Foi-me dito, mais de uma vez,
que eu tenho um jeito só meu
de enxergar as coisas.
Sempre entendi isso
como gentileza tardia
depois de me pisarem.
Ainda me desculpo
por estar no caminho —
só mais uma menina negra
que não teve MC Luanna
cantando Cartas a uma garota negra
antes da adolescência.
Dizem que sou diferente
porque cada soco
e cada tapa
dirigidos a mim
viram poema —
tão melodramático
quanto a humanidade escassa
de cada cidadão de bem.
Jogo verdades e mentiras
em linhas tortas
para seguir em frente,
mesmo sem sair do lugar,
tentando sobreviver
a coisas e palavras
lançadas contra mim
antes mesmo
de eu aprender a nadar.
O curioso é que ainda
não sei me virar
no mar
nem na vida.
A cachoeira só não me perturba
nos sonhos,
porque, de tudo
o que pode dar errado no mundo,
a natureza
é o que menos me preocupa.
Eu queria que ela ficasse,
mas não por ela —
por mim.
O egocentrismo a cegou
como a autopiedade
me persegue:
mania tola
de me sentir inferior
a ponto de implorar
para ficar
quem nunca quis
nem entrar.
Peço perdão
por coisas
de que nem me arrependo —
ou sequer lembro —
só para fingir,
como todos nós,
que marcas e traumas
se apagam
com um abraço.
Tão comprometida
com minha autocompreensão,
olho todos
de igual para igual,
enquanto evito
meu próprio reflexo.
Sou a percepção
que criaram de mim,
somada a tudo
o que me recuso
a admitir.
Programada
para ser a que nunca vai embora,
a que nunca é amada,
transbordando amor
por quem,
assim como eu,
nunca se amou.
Disseram-me outro dia
que causei mais danos
a mim mesma
do que quem tentou me ferir.
Há muito tempo
deixei de escrever
para quem for ler
e passei a escrever
para que minha alma
consiga expor
a frustração
que ainda a acompanha.
Por isso,
você talvez nunca entenda
o caos que componho,
mas ainda assim
se encantará
com o amor mentiroso
que insisto
em escrever.
Se algum desses ecos também encontrou espaço dentro de você, talvez valha a pena ficar por perto.
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