Me alimento de corações partidos,
porque vivi em busca
dessa sensação de lar
que ainda não reconheço.
Logo eu,
que me sufoco
com a ideia de sentir demais,
não sobrevivo sem obsessões
nem reações a sentimentos
que nasceram só de mim —
virando piada
em espetáculos
que eu mesma produzi.
Abraço ideias
nas quais nem acredito,
e, assim,
agrado a todos:
mantenho distância de quem sou
e proximidade
de quem me quis
numa invenção
que sustentei
com falsas promessas,
pedindo desculpas
antes mesmo
de pedir licença.
Desde sempre,
me sinto culpada:
por quem sou,
pela cor que tenho,
pelo cabelo que uso,
pelas roupas que escolho
e pelas mulheres
que quase amei.
Talvez pessoas brancas
não entendam isso.
Ou talvez
eu subestime
nossa capacidade de compaixão.
Humanos choram
pelo cachorro que se foi,
mas não pelas crianças
obrigadas a gerar outra criança,
fruto de outra violência.
Ou choram por bebês
que nem existem,
enquanto ignoram
os que sangram
diante deles.
Gosto de me descrever
como uma obra de Basquiat,
mas sou, muitas vezes,
algo escrito
pelas mãos racistas
de Monteiro Lobato.
Sou a contradição
entre aquilo que acredito
e os preconceitos
que ainda me definem —
não só os que jogaram em mim
desde a infância,
mas também
os que distribuo
a quem não compreendo.
Alguns buscam perfeição,
outros felicidade,
dinheiro
ou sanidade.
Chamei todos de tolos.
Não existe felicidade
sem posse:
nem que seja
mais dinheiro
do que se pode gastar
ou a alma
de quem você jurou amar.
Então,
de fininho,
me retiro.
Não quero causar indigestão
— já incomodo
por contaminação.
Até pediria um abraço,
palavras doces
como consolo,
mas nenhuma parte
que restou de mim
acredita em afeto
sem interesse.
Sentei no divã
para encarar
minha própria essência,
enquanto outros
se escondem
atrás de si mesmos.
Quem sou eu para julgar?
Ainda morro de medo
de não ser suficiente
para suportar
o que almejo.
Em contrapartida,
há muito tempo,
nada mais
eu realmente desejo.
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