O que ninguém foi para mim

o dinheiro que eu chamo de sujo
compra o alimento
que falta na casa de tanta gente.

ainda me sinto a garotinha sem mistura,
tinha arroz e feijão,
então estava tudo bem.

a roupa que todos têm
menos quem vem de onde eu venho.

sou poliglota:
falo a língua dos anjos
enquanto me reconheço ateu.

converso com meus demônios em tom baixo,
pra que eles não se descontrolem.

visionária
e fracassada.

uma artista qualquer,
com sua arte imunda
infectando poucos,

porque guarda toda sua grandiosidade
pras paredes do quarto.

quem, além de mim,
prestaria atenção
no que alguém com a pele
e o gênero que eu tenho
tem a dizer?

silenciada a vida toda,
eu já nem sei o que dizer.

me moldei.
me tornei essa versão quebrada
que de longe encanta,
até fascina.

atraente?
desejada?

nunca escolhida.

afinal,
se nem eu me amo
e nunca me escolhi,

posso exigir
que mulheres com suas feridas,
preconceitos e manias
me queiram?

posso escrever mais lamentos,
eles ainda me preenchem.

mas me fala de você:

o que se esconde
por baixo da sua armadura?

quem te acolhe
quando tudo ao redor fica turvo?

eu enxergo a máscara.

vejo feridas tão profundas
que você decidiu chamar de cicatriz.

não salta desse despenhadeiro.
não se fecha mais.

eu sei o que a gente faz
pra sobreviver numa vida
que não deixa tempo pra viver.

sei dos pesos
das pessoas
dos medos
que ninguém consegue nomear.

me conta seus sonhos,
eu prometo: me importo.

quero entender
como ajudar,

mesmo que não sobre nada
que eu possa dizer.

nesse poema
que tem tão pouco de mim,

eu tirei o dia
pra saber de você.

cada pedaço
que te define
e sustenta teu alicerce.

me mostra teus pontos fracos.

mesmo que tua vulnerabilidade
seja um tesouro,

eu não quero roubar,
não quero espalhar,
não quero ferir
nem te colocar em alerta.

eu só quero ser
pra você

o que ninguém nunca foi
pra mim.

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