Você não consegue compreender do que tudo isso se trata.
Coitadinha dela,
perdida em meio aos meus devaneios?
Você é só uma menininha descolada,
à frente do seu tempo,
que não enxerga o elefante na sala
quando se trata de nós duas.
Ocupada demais lutando por igualdade,
não percebe a balança desequilibrada
que nos move.
Tem razão, me desculpe.
Não quero soar covarde
empurrando seus traumas
para debaixo do tapete.
Mas não seja vitimista, não é mesmo?
Até Madonna entendeu Tupac
— e você ignora tudo
o que está diante dos seus olhos.
Ou será que nem ela, nem você,
colocaram as lentes
para enxergar a imensidão
da diferença gritante
que nos separa?
O que nos une?
Um sentimento?
Que privilégio branco
é acreditar que algo
que não se pode sequer tocar
pode sustentar um futuro.
O que nos une?
A ideia de mudança
numa humanidade
que todos os dias
escolhe o retrocesso?
O que te faz ficar
é o que sente por mim
ou tudo o que eu significo
estando aqui por você?
Não vê a incoerência?
Estou realmente apaixonada
ou preciso te ter
para validar quem sou?
Isso é uma relação
de igual por igual
ou existe um acordo
que eu nunca assinei?
Estou jogando meus traumas em você
como jogo os traumas
dos meus ancestrais
que vieram antes de nós.
Estou sendo covarde,
buscando uma brecha
para não lutar
por essas borboletas
que me fascinam
quando te olho.
Sei que sou brutal com palavras.
Falha nos gestos.
Grande apenas
numa folha de papel.
Sei que o que transborda por você
talvez não preencha o horizonte
da forma como descrevo neste poema.
Mas o tanto que te amo me assusta,
porque pessoas como eu
não têm o privilégio
da vulnerabilidade.
Tenho medo de o futuro
não sair como combinado
e eu me sentir ainda mais fraca
diante da sua imagem
— ou dessa maldita sociedade.
Não queria mais me culpar
nem te culpar
por toda dor que carrego.
Não queria ser refém
das migalhas de afeto
que recebi a vida inteira.
Mas sou o resultado
de tudo o que adquiri
pelo caminho.
Ainda me quer?
Planeja fugir?
Eu queria te escrever
dizendo que estou partindo,
mas, diferente dele,
sou como todo jogador de futebol:
presa a uma imagem vendida
de sucesso e combinação perfeita.
Preciso de você
ou sou ainda mais cruel:
preciso do que estar com você,
em certos lugares,
me faz sentir?
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