• Quem Seriamos?

    Quem seríamos
    se não fôssemos a soma
    de tudo o que nos atravessou?

    Numa corrida cega
    passando bastão por bastão,
    infectando — principalmente
    quem dizemos amar.

    Existe outra maneira
    de ensinar
    o que nos foi ensinado?

    Atiro pedras da minha janela
    e me pergunto
    quem somos
    senão tudo aquilo
    que condenamos uns nos outros.

    A violência me deu bom dia.
    Por aqui, ela e o ódio
    são a melhor companhia —
    educados, cordiais,
    projetando o imperdoável
    para que jamais possamos
    nos perdoar.

    Desculpa
    se por um instante pareceu
    que eu sabia o que dizia.

    Nunca fui de certezas.
    Eu me perco nas minhas convicções
    e navego pelo caos da minha cabeça.

    Só posso oferecer o que tenho.
    E se nada de bom restou,
    te entrego meus devaneios
    numa folha qualquer.

    Não veja como fraqueza.
    É um tesouro.

    Porque não há nada mais cru
    do que o conhecimento
    de um ser em ruína.

    Eu escrevo sobre humanos
    porque nada me fascina mais
    do que as inconsistências
    da verdade que contamos,
    vivemos
    e juramos acreditar.

    Você já sentou para ouvir sua mãe?
    Já perguntou como ela chegou
    até aqui?

    Já tentou sentir empatia
    por quem te ama
    e mesmo assim te destrói?

    Eu sento.
    Eu observo.
    Eu analiso.

    Justifico.
    Culpo.
    Me puno.

    Talvez seja tortura.

    Mas há algo quase libertador
    em perceber
    que você não é o único
    eco
    dos próprios demônios.

  • Metade da minha Vida

    Passei metade da minha vida me odiando.
    Tinha que culpar alguém além da minha família pela miséria que me preencheu.
    Depois, com a maturidade, adquiri ainda mais consciência —
    e aí que saudade da bênção que habita na ignorância.

    Então tive que me deitar com meus anjos e demônios.
    Juntei cada conselho e cada maldição que me lançaram
    para produzir uma mixtape que acalme os fantasmas
    que ainda me perseguem.

    Não importa o quanto evolua
    se ainda me deito com a branca cuja única letramento racial é o da escravidão,
    ainda mendigando o que deveria ser meu por direito.

    Alguns poetas escrevem sobre amor.
    Outros, como eu, descrevem com sutileza as nuances da agonia.
    Somos reféns dos sentimentos:
    eles nos guiam para frente ou para trás,
    deixando o que sinto escorrer das minhas mãos
    como respinga a tinta da minha única arma
    no meio da guerra que já levou mais dos meus
    do que posso contar.

    Vamos ter que nos aconchegar na brasa do quase inferno
    enquanto Deus se prepara para escolher
    quem encontrará o paraíso.

    Sou vazia do que os humanos se alimentam.
    A empatia me abraça e me sufoca,
    por isso enxergo a súplica de todos.
    Logo me apelidaram de comunista,
    lutando pelos meus com a distinção de Martin Luther King Jr.,
    sem um pingo da ousadia e audácia de Malcolm X,
    sempre a um passo de cair do alto como Tupac Shakur.

    Me jogando todos os dias do precipício que escalei
    para conseguir enxergar a alma da qual me despedi
    todas as vezes que fui violada.

    Se eu não escrever sobre as contradições que moldaram minha essência,
    se eu não depositar toda a minha raiva nessa caneta,
    se eu continuar me trancando num quarto escuro
    sem admirar a minha própria luz,
    se eu continuar presa no “e se”
    e nunca chegar até o fim do roteiro
    que ele já abandonou há tanto tempo,

    será que descubro o sentido da vida?
    E se a vida nunca tiver sentido, de fato,
    terei me perdoado por tentar tanto entender o humor de um sádico?
    Ou será que meu único arrependimento
    será tudo o que nunca vivi?

    Está vendo?
    Eu preciso recitar cada “e se”.
    Tenho que jogar para fora essa imensidão de confusões,
    te fascinar com a loucura que nunca enlouqueceu a sanidade,
    te mostrar as rachaduras das várias vias da verdade.

    Se não sou eu para te bagunçar,
    se não sou eu te alertando,
    o que seria de nós?

    Talvez nada justificasse o tudo que eu trago para essa equação,
    mas me indisponho da necessidade de não questionar.
    A ignorância protege, mas destrói.
    Tenho ânsia de tudo o que não compreendo.
    Preciso saber até o que não suporto.

  • Em Busca

    Em busca do que não tem preço,
    me delicio com tudo que tem valor.

    brinco de paciência
    na tentativa de me esconder da perseverança.

    o que eu desejo ainda não tem nome —
    e talvez por isso eu viva de propósito.
    ou sobreviva.

    eu desejo o amor,
    mesmo sem saber praticá-lo em mim.
    estendo as mãos para fora
    enquanto me abandono por dentro.

    se continuar existindo é milagre,
    o inferno se alimenta do caos que nos pertence.

    prefiro os curiosos aos que se dizem certos.
    a sanidade é educada demais
    para servir a verdade crua.

    sou refém desse infinito
    que consome até o que eu não sabia que era meu.

    sou prisioneira do que me alimenta
    e me veste.
    vendo minhas horas
    para continuar existindo.

    o que me sustenta
    também me limita.

    quero me desvincular
    de tudo o que fui,
    de tudo o que precisei ser
    para sobreviver.

    quero a liberdade —
    não como fuga,
    mas como ruptura.

    a liberdade de quem ainda serei.

    tenho fome do que posso ser.
    tenho sede do que ainda não sei nomear.

    o que eu quero
    vai além do codinome.
    vem com peso.
    e soma.