Não se dê tanta importância.
Nunca foi sobre você.
Nem agora.
Sou eu.
Sempre fui.
Essa cabeça em guerra,
esses traumas mal resolvidos
que me algemaram antes
de você existir.
Não se sinta especial.
Você não me fez sentir nada
quando estávamos juntas.
O que dói
é depois.
É o silêncio,
é o abandono reciclado,
é a ferida antiga
reaberta com outro nome.
Mas também
não se ache irrelevante.
Sem você
eu jamais teria coragem
de admitir
que não te esqueço
porque preciso de dor
para continuar existindo.
No fundo,
ainda sou aquela menina negra
ensinada cedo demais
a não ser escolhida —
pela mãe,
pelo mundo,
por quase ninguém.
Você não quebrou
um coração inteiro.
Só o amassou
com cuidado suficiente
para que ele voltasse
à forma errada de sempre:
a do abandono.
Essa sensação
que dorme comigo,
acorda comigo
e me reconhece melhor
do que qualquer espelho.
Todos temos demônios.
Os meus aprenderam
a falar baixo
e parecer paz.
Os seus
aprenderam a sorrir
e fingir controle.
Minha terapeuta foi direta:
“Você escolhe mulheres indisponíveis
porque também não sabe ficar.”
Então não se esconda.
Se você já esteve
no meu colchão,
assim como eu no seu corpo,
existem partes suas
espalhadas por aí —
perdas irreversíveis,
horcrux vivas,
fragmentos que nos tornam
menos inteiras
e nunca soberanas.
Este poema
não é sobre você.
É sobre cárcere.
Sobre fantasmas que não existem mais
e mesmo assim
mandam.
Sobre dores vencidas no calendário
e eternas no corpo.
Isso não é um pedido bonito.
É um aviso tardio.
Que o amor
não continue nos parecendo ameaça.
Que a gente pare
de expulsar quem tenta ficar.
Que a raiva não vire moradia.
Que o arrependimento
não nos coma vivas
todas as noites.
Que você me perdoe
por ser um campo minado.
Que eu te perdoe
por ir embora
quando ainda sangrava.
E que, algum dia,
a gente deixe de ser
o reflexo fiel
das crianças negligenciadas
que aprendemos a carregar
no peito
como sentença.

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