No final, sou só isso:
o excesso do excesso
daquilo que despejaram em mim.
Sempre reserva.
Sempre disponível.
Sempre impedida de viver.
Sou a compreensão
que ninguém teve coragem de aprender.
Vesti meus próprios medos
como uniforme de sobrevivência
e, quando percebi,
o mundo já tinha autorizado
a minha ausência.
Carrego horrores
que só uma criança reconheceria
— e que o tempo promoveu a trauma oficial.
Meus demônios se revezam
na sala de controle,
discutindo quem governa
a próxima violência.
Meus traumas administram
com método,
com relatório,
com discurso pronto.
Violência como política pública.
Crueldade como manutenção da ordem.
Cláudio Castro assina.
Tarcísio de Freitas chama de necessário.
Praticam todos os crimes possíveis
contra a minha própria pessoa
e ainda exigem
que eu agradeça por estar viva.
Sobrevivo não por escolha,
mas porque aprendi cedo
que até morrer
precisa de autorização.
Cometo atrocidades
depois que desligam as câmeras.
Sou uma bala perdida
que aprendeu
que corpos pretos
nunca são engano —
são estatística.
Cega para o que está à frente,
como quem confunde afeto
com disciplina.
Sou tudo o que eu tinha
quando não tinha nada.
Talvez hoje
ainda seja isso.
Mas já fui mais
do que me permitiram ser.
Sou o que sobrou
depois que abracei
quem precisei enterrar viva.
Sou uma versão refeita da minha mãe:
a mulher que aprendi a odiar
para continuar respirando.
Ainda assim,
existe nela em mim
um silêncio antigo
que eu respeito.
Talvez eu seja
o ódio por ainda sentir algo
por quem me feriu.
Ou talvez
eu seja a ausência diária
do homem que não ficou
tempo suficiente para me ensinar
a ficar.
Então um brinde, pai,
ao que não vivemos.
E uma gota de sangue
por tudo que a presença dela
nunca me deixou ser.
Sou esse acúmulo de ruína
que insiste em funcionar.
E se existe algum preconceito
do qual não abro mão,
é o que construí
olhando para mim
sem absolvição.

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