Ela não é princesa.
É refém das histórias que acreditou
e executada por cada final feliz
que nunca chegou.
O beijo do amor verdadeiro
não a salvou —
apenas arrancou o disfarce.
Ela é o acúmulo
de tudo o que nunca disse.
A menina que se encolheu diante dos gritos
cresceu repetindo o silêncio
como método de sobrevivência.
Aceitou punições em série,
como quem acredita merecer dor,
quando o único erro
foi amar sem saber fugir.
Esvaziou-se
não por falta,
mas por excesso:
excesso de indiferença,
de abandono,
de gente que passou por ela
sem deixar humanidade.
Aprendeu cedo
que não merecia cuidado.
Por isso conversa com mortos
e evita os vivos —
eles machucam melhor.
Tentou não existir
mais vezes do que admite,
porque reduziram tanto sua essência
que desaparecer
pareceu coerente.
Ela diz que está bem.
Sempre diz.
É a mentira mais ensaiada.
Sorri para não incomodar,
se apaga para não ser lembrada,
ocupa pouco espaço
como quem pede desculpa por respirar.
Todo mundo vê
o jeito covarde
com que se destrói:
bebe, transa, trai,
rasga mulheres ao meio
para não ter que encarar
o próprio reflexo —
vazio, quebrado, irreparável.
Faz do outro
o campo de guerra
onde tenta vencer a si mesma.
Tornou-se sua própria carrasca,
afiando o que restou
até virar lâmina.
Um caco consciente
do dano que causa.
Chama isso de força.
Diz que sobreviveu.
Mas não é vítima,
nem sobrevivente —
é alguém que aprendeu
a ferir antes de ser ferida.
Sem raiz, sem chão,
usou meu coração
como alvo móvel,
como jogo,
como distração.
E saiu achando que venceu.
Eu não perdi nada.
Perder é sentir falta.
O que sinto por ela
não é saudade —
é pena.

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