Oi, pai.
Como o senhor está?
Faz tempo que não sento
para tentar conversar com você.
Ou melhor:
faz tempo que sento
para falar
sabendo que você não responde.
Não vou mentir, pai,
me acostumei com o silêncio
a ponto de não querer quebrá-lo.
Ele virou a única coisa estável
entre nós.
Não sei lidar
com a ausência de tudo
o que não tivemos.
E, estranhamente,
não sofro tanto pelo que teríamos sido,
mas pelo que nunca saberei
se você teria amado em mim.
Sabe o que é, pai,
ser a filha desejada
de um homem que não esteve aqui
para viver o próprio sonho?
Sabe o que foi descobrir
que você me amou
a ponto de desistir
de uma parte de si
para tentar ser alguém
de quem eu pudesse me orgulhar?
E, ainda assim,
carregar o medo constante
de nunca ser
alguém de quem você
teria orgulho.
Será que me amaria?
Ou só me suportaria,
como tantos pais por aí?
Será que me aceitaria?
Ou apenas existiria ao meu lado
sem nunca me conhecer de verdade?
Me afastei de tudo
que envolve você.
Das memórias
— que, se existiram,
eu já não sei distinguir.
Do seu sobrenome,
porque como se honra
alguém que não se lembra?
Da sua família,
porque como explicar
que me tornei alguém
tão quebrada
que não sabe receber afeto
sem desconfiar dele?
O que o senhor acharia
dessa versão minha, pai?
Será que, se tivesse ficado,
eu seria outra?
Ou será que eu só teria aprendido
a doer de um jeito diferente?
Será que eu te odiaria
se você estivesse aqui?
Será que eu te perdoaria
por qualquer coisa
que pudesse ter jogado em mim?
Pai,
será que eu seria
essa versão tão cheia de falhas
se você tivesse vivido?
Será que você pode me perdoar
por ter feito você partir?
Por não lembrar do seu rosto,
da sua voz,
de quase nada?
Eu odeio os “e se”, pai.
Mas eles são tudo
o que sobrou de você.
Porque eu já não lembro
da sua face.
E isso dói
de um jeito que não sangra,
mas pesa.
O senhor se foi
quando eu era nova demais
para guardar detalhes.
E hoje carrego
uma saudade sem imagem,
um amor sem lembrança,
um luto
sem corpo.
Então fico aqui,
falando sozinha,
te escrevendo
como quem acende uma vela
que não ilumina,
mas esquenta a mão.
Se o senhor ainda existir
em algum lugar,
saiba:
mesmo sem te lembrar,
eu senti sua falta
a vida inteira.
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