Vim de onde se mata
mais que um leão por dia.
Onde filhos choram baixo
para que as mães não vejam,
enquanto elas oram
segurando uma bíblia
escrita por mãos
que odeiam mãos como as delas.
Prometem céu
em nome de um Deus
que nunca desceu aqui.
Aqui,
tudo é ponto de vista.
Te faço enxergar a violência que convivo
com palavras bonitas —
dessas que um professor de português bêbado
fez questão que eu aprendesse
para sobreviver fora daqui.
Ser humano é coleção de facetas:
ninguém tão bom quanto posa,
ninguém tão ruim quanto parece.
Carrego mágoas e traumas
como quem carrega sacolas rasgadas:
tudo cai no meio do caminho.
Verdades que incomodam.
Mentiras que nunca couberam em mim.
Alguns arrependimentos
não nos pertencem,
mas nos moldam.
Como falhar com ele
por não ter entrado na federal
que ele tinha certeza
que eu passaria.
Talvez passasse.
Mas quem pagaria o sonho?
Ele admirava minha arte,
mas nunca conheceu
o fundo do poço
onde eu moro.
Em defesa dele,
eu também nunca tentei entender
o que o quebrava
a ponto de se dissociar
para continuar vivo.
Insano é o privilégio
de quem ainda acredita na humanidade.
Não mais irônico
do que o de quem acredita em Deus
e age contra tudo
o que Ele prometeu.
Eu vi uma mãe
pular na bala
para proteger um filho
que a sociedade obrigou a nascer,
só para alguém ter o prazer
de matá-lo
diante dos olhos dela.
Eu também vi
uma mãe bater na própria filha
para defender o homem
que entrou no quarto
de madrugada.
Você vai me falar de amor.
Mas o amor daqui
é presença mesmo na ausência.
É a dona da casa
que mal enxerga os filhos,
mas entrega tudo o que tem
para que eles sigam vivos.
Bem-vindo ao mundo
onde nada faz sentido,
mas tudo insiste
em te provar
que ainda existe vida —
ou não.
Porque há quem aqui
nunca tenha sentido nada
além de fome.
Gente buscando felicidade
no malote de um bilionário
que jamais saberá seus nomes,
ou tentando encontrá-la
no divã de um consultório.
Afinal,
só quem tem dinheiro
pode bancar
a própria paz de espírito.
E eu só posso ser
mais uma
que escreve
com o corpo
aquilo que vive.
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