Vi a vida inteira de um camarote.
Perto demais
para assistir minha mãe se destruir por autopiedade
enquanto nos destruía
com método.
Nunca esqueci
a satisfação no rosto dela
quando me feria.
Foi com ela
que aprendi a forma mais perigosa
de chamar algo de amor.
Nas mãos dela,
vi meu sangue.
Vi minha alma ceder.
Ela foi a campanha antidrogas
mais eficaz que já existiu —
e, ainda assim,
com o tempo,
quis deitar com cada uma delas.
Porque, se minha mãe os escolheu
como nunca nos escolheu,
talvez a dor realmente desapareça
quando tudo entra.
Não encontrei substância forte o bastante
para apagar
o ódio que ainda mora em mim.
Nem tentei entender
por que continuo voltando àqueles dias
ou por que tremo
com a possibilidade
de me tornar ela.
Mas já feri e humilhei
todos que digo amar.
Como ela.
Sou feita dos cacos
do que se quebrou
antes que eu aprendesse
a consertar qualquer coisa.
Carrego reflexos
que não sei abandonar.
Torno-me cruel
para sentir algo
com emoções que larguei
quando me deixei para trás.
Socos.
Tapas.
Cuspidas.
Chutes.
Objetos contra o corpo.
Palavras atravessando
o que restava de mim.
Refiz-me apenas
das partes que ela não alcançou.
Aprendi todas as mentiras
que ainda contará.
Antecipei as verdades
que insistem em voltar.
Foi ela quem desenhou
meus padrões de afeto.
Por isso não sei deixar ninguém ficar,
mas aprendi cedo
a expulsar todos —
menos os demônios
que dormem e acordam comigo.
Na escrita,
eu poderia oferecer esperança.
Ignorar o trauma.
Fingir coragem diante da vida.
Mas se não posso colocar no papel
o que me tortura todos os dias,
onde vou encontrar
o remédio
que me permita suportar
mais um
com tudo aquilo
que não consigo apagar?
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