Evitando mostrar quem eu sou,
para não afastar quem eu busco.
Acostumada a não fazer barulho,
para não despertar os berros
daquela que me ensinou tudo —
menos como me amar.
Fantasiando com um dia melhor do que ontem,
sem ao menos superar
que nunca houve dias melhores.
Tão quebrada que assusto,
e tão vazia
que transbordo cacos de vidro em coletivo.
Ainda sonho com aquilo que não almejo,
apenas para me sentir bem
com a ideia do que realmente anseio.
São só palavras jogadas
numa folha de papel,
contendo cada pequena célula do meu corpo,
expelindo cada excesso do que me assombra
— mas que, ainda assim, me pertence.
Eu queria que fizesse sentido
tudo o que escrevo,
mas faz parte do que me afogo
e não do que desenvolvo.
No final do dia,
sou só eu, minha avó e meus guias.
No começo, será sempre eu
e amigos que nunca me conheceram de verdade,
assumindo outro personagem —
de preferência, um que não mostre
o quanto sou perturbada
por fantasmas de carne e osso.
Por dentro,
uma confusão em nylon;
por fora,
sorridente e gentil,
mesmo que não exista uma parte em mim
que não exponha
o quão traumatizada eu sempre serei.
Esperando ser salva —
ou apenas curada —
sem nunca realmente ter deixado
alguma mulher ficar
para resgatar a pequena parcela de mim
que ainda acredita
que existe algo bom aqui dentro.
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