Passei metade da minha vida me odiando.
Tinha que culpar alguém além da minha família pela miséria que me preencheu.
Depois, com a maturidade, adquiri ainda mais consciência —
e aí que saudade da bênção que habita na ignorância.
Então tive que me deitar com meus anjos e demônios.
Juntei cada conselho e cada maldição que me lançaram
para produzir uma mixtape que acalme os fantasmas
que ainda me perseguem.
Não importa o quanto evolua
se ainda me deito com a branca cuja única letramento racial é o da escravidão,
ainda mendigando o que deveria ser meu por direito.
Alguns poetas escrevem sobre amor.
Outros, como eu, descrevem com sutileza as nuances da agonia.
Somos reféns dos sentimentos:
eles nos guiam para frente ou para trás,
deixando o que sinto escorrer das minhas mãos
como respinga a tinta da minha única arma
no meio da guerra que já levou mais dos meus
do que posso contar.
Vamos ter que nos aconchegar na brasa do quase inferno
enquanto Deus se prepara para escolher
quem encontrará o paraíso.
Sou vazia do que os humanos se alimentam.
A empatia me abraça e me sufoca,
por isso enxergo a súplica de todos.
Logo me apelidaram de comunista,
lutando pelos meus com a distinção de Martin Luther King Jr.,
sem um pingo da ousadia e audácia de Malcolm X,
sempre a um passo de cair do alto como Tupac Shakur.
Me jogando todos os dias do precipício que escalei
para conseguir enxergar a alma da qual me despedi
todas as vezes que fui violada.
Se eu não escrever sobre as contradições que moldaram minha essência,
se eu não depositar toda a minha raiva nessa caneta,
se eu continuar me trancando num quarto escuro
sem admirar a minha própria luz,
se eu continuar presa no “e se”
e nunca chegar até o fim do roteiro
que ele já abandonou há tanto tempo,
será que descubro o sentido da vida?
E se a vida nunca tiver sentido, de fato,
terei me perdoado por tentar tanto entender o humor de um sádico?
Ou será que meu único arrependimento
será tudo o que nunca vivi?
Está vendo?
Eu preciso recitar cada “e se”.
Tenho que jogar para fora essa imensidão de confusões,
te fascinar com a loucura que nunca enlouqueceu a sanidade,
te mostrar as rachaduras das várias vias da verdade.
Se não sou eu para te bagunçar,
se não sou eu te alertando,
o que seria de nós?
Talvez nada justificasse o tudo que eu trago para essa equação,
mas me indisponho da necessidade de não questionar.
A ignorância protege, mas destrói.
Tenho ânsia de tudo o que não compreendo.
Preciso saber até o que não suporto.

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